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Archive for the ‘Resumo’ Category

Cibercultura

 

Autor – Pierre Levy

Publicação – 1997

 

Introdução

Cibercultura, livro do sociólogo francés Pierre Levy, é um dos primeiros trabalhos sobre as novas tecnologias de informação e comunicação que destaca as mudanças sociais que essas novas tecnologías poderiam ocasionar. Assim como os meios de comunicação de massa fizeram surgir uma nova concepção de cultura, também a emergência do ciberespaço tras consigo outra idéia de cultura, diferente da anterior. Essa mudança e as posibilidades geradas por ela sao exploradas a fundo pelo autor, um entusiasta confesso da cibercultura.

 

Resumo

O livro de Levy é uma obra que trata de conceitos. Por isso mesmo acredito que a melhor maneira de abordar este texto é tentar resumir os conceitos fundamentais do libro ao invés de comentar ponto a ponto seus capítulos. No final do resumo falaremos sobre as criticas que geralmente sao feitas ao livro e a obra do autor.

O ciberespacio – Toda cultura necesita um espaço para realizar-se e a cibercultura nao foge a essa regra. Mas diferente de todas as outras culturas anteriores o espaço da cibercultura nao é um espaço geográfico ou físico, mas sim um espaço virtual chamado por Levy de ciberespacio. O ciberespacio é um lugar virtual, formado pela conexão em rede de aparelhos informáticos. Nesse espaço virtual surge uma maneira de criar e interagir diferente, denominada pelo autor de cibercultura.

Cibercultura – Os primeiros usuarios do ciberespacio eram, segundo Levy, acadêmicos da área de computação, gente que tinha participado do movimiento da contra cultura nos anos 1960. A cibercultura é para o autor uma continuação do movimiento hippie no ciberespacio. Por isso  ela se caracteriza por ser rizomática, ou seja, nao ter um centro de poder claro, o que permite que seus detratores a chamem de anárquica. É também colaborativa, já que  em teoria todos os usuário podem participar na criação e circulação do conhecimento na rede.  E está aberta a participação de todos que tenham acesso a Internet, independente de classe social ou posição geográfica.

Inteligência coletiva – O projeto da cibercultura é a interconexão geral, diz Levy. Essa interconexão geral levaria pouco a pouco à criação de um imenso arquivo diponível para todos, uma especíe de inteligência coletiva. Esse banco de dados nao teria proprietários, seria uma especíe de patrimônio da humanidade, porque feito por todos e para todos. Mas se a informação  tem dono, como no caso dos conteúdos protegidos por direito de autor, obviamente se cria um conflito. É o que vemos hoje na chamada guerra contra a pirataria, que é também uma guerra contra a tentativa de mudança no paradigma de produção de cultura e conhecimento. y cuyo objetivo es impedir la creación de una base de datos universal y abierta a todos

Dilúvio informativo – A metáfora navegar na Internet sugere uma certa liberdade que os usuários dessa rede tem para se deslocar de um lugar para outro livremente, como se estivessem em um barco na imensidão do oceano. Mas também nos faz pensar na imensa quantidade de informação disponível na rede. Levy diz que estamos todos imersos em um dilúvio informativo e que ao contrario do dilúvio bíblico nao é possível reunir uma pequena seleção e nos isolar do restante. A torrente universal de informação destruiu o centro e nos colocou a todos na mesma condição de navegantes obrigados a construir sentido em meio ao dilúvio universal.

O Universal sem totalidade – É a maneira como descreve Levy a situação em que se encontram as pessoas no ciberespacio. Adotando uma perspectiva histórica, o autor nos fala sobre como a invenção da escrita promoveu um fechameto do sentido das mensagens, uma totalização. A cultura livresca, ao contrario das culturas orais que a precederam, era universal, porque podía se movimentar tanto no tempo como no espaço. Mas era também totalizante, porque trazia consigo a uniformidade do sentido. As mensagens (livros e depois músicas ou filmes) eran produzidas por uma pequena elite e consumidas pela grande massa, de forma quase sempre passiva. A cibercultura é tambem universal, porque chega virtualmente a toda a população mundial, mas nao é totalizante, porque nela o monopólio da produção de sentido nao está restrito a uma pequena elite. Nessa nova realidade o universal, que sempre esteve identificado com o totalizante, assume a forma de universal sem totalidade.

Os críticos do trabalho de Levy apontam o excesso de otimismo como principal problema de sua obra. Argumentam que para que cheguemos a alguma coisa próxima do universal sem totalidade primeiro seria necesario alfabetizar milhões de pessoas, e depois garantir a todas elas acesso a Internet. Esse problema nao é ignorado por Levy, que a seu favor diz que os problemas técnicos e sociais que impedem que todos tenham acesso a rede serao resolvidos cedo ou tarde, e que é necesario pensar nas possibilidades que as nova tecnologias abrem antes que elas se cristalizem em uma forma ou outra.

Outro questionamento que se faz é sobre um suposto tecnicimo do autor. Da mesma forma que Mcluhan, Levy procura sempre deixar claro que em sua opinião a tecnologia condiciona, nao determina. Os usos das tecnologias são determinados pela sociedade, que ele admite, quase sempre emprega os instrumentos de uma forma totalmente distinta daquela em que os utopistas imaginavam utiliza-los.

 

Conclusão

Cibercultura é um livro que está prestes a completar 15 anos de existência. O universal sem totalidade segue sendo uma utopia, já que uma grande parte da população mundial ainda nao tem acesso a Internet. Entretanto, vimos ao longo dessa década e meia como a rede cresceu de forma exponencial, tornando-se parte da vida de bilhões de pessoas em todo o mundo. O camino rumo a universalidade da informação parece seguro, mas a tentativa de fechar o sentido e de controlar o significado por parte de alguns grupos segue sendo uma ameaça a realização da utopia imaginada pelo sociólogo francés. Cibercultura envelhece melhor que outro livros sobre o tema porque não enfatiza os aspectos meramente tecnológicos das TICs, mas sim as trasnformações sociais que esas tecnologias podem trazer, ainda que as vezes peque por um otimismo exagerado.

Categories: Cybercultura, Resumo

Being digital

 

Autor – Nicholas Negroponte

Publicação – 1995

 

Introdução

Being digital é um livro pioneiro nos estudos sobre cultura digital e por isso continua sendo importante em qualquer bibliografía sobre cibercultura. Em 1995 nao só a Internet era ainda uma grande desconhecida do  publico em geral, especialmente fora dos EUA;  também o próprio conceito de informática pessoal era pouco difundido  se comparado aos dias de hoje. O livro do profesor do MIT Nicholas Negroponte antecipa muitas das características que a rede assumiria com o passar dos anos e também trata, ainda que rapidamente, das possiveis mudanças sociais que estas tecnologias, aliadas a massificação da informática pessoal, poderiam causar.

 

Resumo

A metáfora central do livro é aquela que descreve a mudança de uma sociedade ou economia baseada no átomo para uma baseada nos bits. É a partir dessa metáfora que Nengroponte vai costurando capitulo por capitulo seu discurso. Os bits, afirma o autor, são muito mais fáceis e baratos de manipular, copiar e distribuir que os átomos. Um jornal feito de papel tem um custo econômico e ecolôgico muito maior que uma edição do mesmo jornal num formato digital. Por isso o caminho natural em termos econômicos é o da mudança de átomos para bits. Ser digital, dizia o autor na metade dos anos 1990, nao é só ter um CD ROM e uma conexão telefônica a Internet. As transformações, dizia ele, serão muito mais profundas, chegando ao ponto de mudar radicalmente a maneira que consumimos informação, aprendemos e nos comunicamos.

Ainda que esas afirmações pareçam obvias hoje em dia a verdade é que nem todas as previsões que Negroponte faz no livro podem ser consideradas fáceis, mesmo desde um ponto de vista atual, passados quinze anos desde a publicação da primeira edição do libro. Quando fala da incrível dose de personalização que a informação poderia alcançar na era dos bits o autor quase descreve em detalhes o modelo de negócio mais bem sucedido na Internet hoje em dia, o modelo do Google.  Negroponte consegue ver com clareza algo que poderíamos chamar de lógica dos bits. Muitas empresas ponto com poderiam ter evitado a falência se seus CEOs tivessem lido e entendido o livro de Negroponte, desistido assim da idéia de tentar recriar a lógica dos átomos num território essencialmente feito de bits, com resultados obviamente mediocres.

Os problemas que as novas tecnologías criariam para os donos de direitos autorais também foram previstos por Negroponte, mas o autor nao parecia acreditar que esses problemas chegassem a ser um dos principais obstáculos para a passagem de uma cultura baseada nos átomos para uma cultura digital. Negroponte sabe que o mundo digital é o mundo do copy and paste, e que alguns conflitos podiam ocorrer quando a lógica do copy and paste afetasse os conteúdos protegidos por direitos autorais. Mas ele pensava que as mudanças na legislação de copyright tornariam a lei menos severa , uma aposta que se mostrou totalmente equivocada. Somente 3 anos depois da publicação de Being digital o congresso dos Estados Unidos aprovou o Digital Milleniun Copyright Act (DMCA), que endureceu a lei norte americana de direitos autorais.

Esse fato demonstra que apesar da precisão de suas previsões a respeito da evolução da tecnología Negroponte parece incapaz de imaginar uma Internet cujo zeitgeist nao esteja de acordo com a lógica capitalista. Como conhecedor da cultura digital Negroponte é um moderado que acredita que a indústria cultural deve entregar os anéis para não perder os dedos. A mudança parece ser o caminho natural para ele, mas nao uma mudança radical. No mundo digital que Negroponte visualiza as locadoras de video continuam sendo um negócio dominado pela Blockbuster, que já nao tem lojas físicas mas aluga videos digitais via Internet. A indústria porém demorou anos para se adaptar a nova realidade digital e nesse espaço de tempo apareceram novas formas de distribuir conteúdos, menos centralizadas e mais adaptadas a cultura digital, formas essas que nao foram antecipadas no livro de Negroponte.

Being digital nao predica a aurora de uma nova era de socialismo baseado nas novas tecnologías digitais, como fazem outros textos sobre as novas tecnologías de informação e comunicação. Ao contrário, fala das posibilidades de que o avanço tecnológico melhore e consolide ainda mais as instituiçoes e estruturas de poder com as quais estamos acostumados hoje em dia. Nesse sentido e em outros, como no uso de piadas rápidas para introducir uma idéia, o livro é bastante norte americano. As modernas tecnologias de informação e comunicação afinal foram criadas pelo império e sua finalidade é perpetuar seu poder, não desafiar a ordem estabelecida.

 

Conclusão

Being digital foi um livro que teve um impacto considerável na época em que foi publicado. Muitas de suas previsões se tornaram realidade, provando que Negroponte realmente estava adiantado a seu tempo quando conseguiu perceber o grau que o avanço tecnológico nas comunicações poderia alcançar na primeira década do novo século. Mas parece que agora que chegamos ao futuro a questão já não é tentar descubrir até onde as novas tecnologias nos vão levar, mas sim saber como essas tecnologias podem ser postas a serviço de toda a população. A impressão que fica da leitura do livro de Negroponte é que alguns dos temas mais importantes da atualidade, como a questão dos direitos autorais ou a crescente intromissão na privacidade dos cidadãos, são tratados como coisas secundárias no livro, porque de alguma maneira Negroponte não pensava que elas seriam relevantes no futuro. Creio que a intenção do autor naquele momento fosse propagar o evangelio digital e todas as outras coisas deixavam de ter importancia diante dessa missão. Talvez por isso mesmo me parece que após completar a tarefa de ser uma introdução ao mundo dos bits Being digital deixa de ter a relevância que teve no passado, se convertendo  quase que em uma curiosidade arqueológica.

Categories: Cybercultura, Resumo

Free Culture

April 17, 2011 Leave a comment

 

Autor – Lawrence Lessig

Data  de publicação – 2004

 
Introdução

Lawrence Lessig é a principal voz contra o atual sistema de copyright tanto nos EUA como possivelmente no restante do mundo. Além disso, Lessig é o responsável pela criação das licenças Creative Commons, uma alternativa para os tradicionais registros de propriedade de autor baseada nas licenças GNU. Free Culture é um livro que pode parecer radicalmente esquerdista nos EUA, mas na verdade seu tom panfletário se deve muito mais ao radicalismo das atitudes tomadas pela indústria cultural norte americana que a retórica de seu autor. Os argumentos expostos por Lessig sobre as vantagens e desvantagens de ter um sistema equilibrado de direitos autorais exigem que seus leitores assumam uma posiçao clara ao terminar a leitura. Por isso, Free culture é leitura indispensavel para quem se interessa pelo assunto.

Resumo

Free culture não é literatura acadêmica no sentido tradicional. Sua estrutura e linguagem estão claramente voltadas a um público leigo e nao aos especialistas em direito autoral. Cheio de metáforas e historias divertidas, o estilo do texto deixa claro que a intenção de Lessig é fazer com que a opinião pública (ou o senso comun, como prefere o autor) se rebele contra a atual legislação de direitos autorais e apoie sua causa. Lessig acredita que a mobilização popular é a única maneira de contrabalancear o poder dos lobbys organizados pela indústria cultural, que conseguem através do poder econômico modificar as leis de diereitos autorais apara atender seus próprios intereses.

Os primeiros capítulos falam sobre os conceitos de pirataria e propriedade, e mostram como esses conceitos podem mudar com o pasar do tempo, conforme mudam também as instituições sociais e a tecnologia. A história de como Mickey Mouse, o ícone da Disney, foi criado a partir de outros personagens é um dos mais fortes argumentos utilizados pelo autor para minimizar o suposto perigo que a pirataria reprentaria para os criadores e artistas em geral. Outro exemplo importante, agora em relação ao tema da propriedade, é o caso de um proceso movido por um fazendeiro contra uma compania aérea cujos voos passavam por cima de sua propriedade. Segundo a constituição dos EUA, redigida no seculo XVIII, o céu sobre a fazenda seria uma extensão da propriedade do fazendeiro. Apesar dessa cláusula constitucional o propietario acabou perdendo a disputa legal porque, segundo Lessig, o senso comum se impos ao direito a propriedade. Os avanços tecnológicos, argumenta o autor, acabam tornando as leis obsoletas.

A tese central do livro é a de que o rigor cada vez maior das leis de direitos autorais estaria destruindo a liberdade criativa na sociedade norte americana. Assim como a aviação comercial nao poderia existir se a ação movida pelo fazendeiro contra a compania aérea tivesse tido sucesso, também não é possível que exista lberdade criativa numa sociedade controlada pelas leis de copyright que existem hoje nos EUA.  A cultura norte americana, que segundo Lessig sempre foi uma cultura livre, estaria agora se transformando em uma cultura da pemissão (permission culture), na qual só os grande grupos de comunicação, armados com um exército de advogados, podem de fato produzir cultura.

Ao contrário do que podemos pensar olhando o título do livro, Lessig nao é favorável a uma cultura na qual os direitos autorais nao sejam respeitados. O autor reafirma ao longo do libro sua profunda crença no direito a propriedade, ressaltando sempre que a propriedade intelectual nao pode ser comparada a propriedade material. Mas Lessig acredita que deve existir um equilibrio entre o direito a propriedade intelectual e o direito que os jovens criadores tem de trabalhar em cima do legado da produção cultural das gerações anteriores. Esse direito estaba garantido antes pela existencia da figura jurídica conhecida como dominio público.

Nos capítulos finais Lessig conta sobre seu papel no proceso movido pelo editor de um site especializado em publicar obras que já estivessem em dominio público contra o governo dos EUA, no qual foi o advogado de acusação.  Lessig acredita que sua defesa foi jurídicamente perfeita, mas mesmo assim nao conseguiu convencer os juizes a apoiar sua tese de que a prorrogação indefinida do tempo de validade do copyright poderia levar a extinção da figura do domínio público no direito norte americano. O autor admite que apesar de haver feito um bom trabalho também teve culpa na derrota, porque acredita que sua defesa deveria ter focado mais em aspectos políticos que jurídicos para que pudesse vencer.

Para encerrar o autor fala de suas propostas para mudar a legislação de direitos autorais nos EUA. Sua idéia é criar uma espécie de registro geral de autores, no qual os registros de propriedade teriam que ser renovados depois de um período de 50 anos. Essa medida permitiria que os trabalhos que nao proporcionam nenhum retorno financeiro a seus autores entrassem em domínio público depois desse período de 50 anos. A renovação das licenças, de acordo com a proposta de Lessig, custaria aos autores 1 dólar. A proposta chegou a ser debatida no congreso norte americano, mas o lobby das industrias de conteúdo conseguiu impedir que a proposta fosse transformada em lei, alegando que essa lei poderia prejudicar os autores com problemas financeiros.

Conclusão

O livro de Lessig não é um tratado sociológico sobre cultura digital, como outras obras sobre o assunto. Poderíamos dizer que se trata de uma mensagem de alerta sobre uma guerra jurídica perpetrada por uma indústria cultural que luta para preservar um modelo de negócio condenado a desaparecer por causa da aparição de uma nova tecnologia. Essa guerra deixa muitas vítimas, desde consumidores e produtores até os próprios criadores. Infelizmente a opinião pública ainda nao percebeu que o verdadeiro perigo para a criação artística nao é a pirataria e sim a possibilidade de que os direitos autorais sejam transformados num direito quase divino. Free culture é um libro coerente com a sua proposta. É leitura obrigatória para todos aqueles que estejam interesados na cultura digital ou cybercultura.

Categories: Copyright, Resumo

P2P and the human evolution: peer to peer as the premise of a new mode of civilization

 

Autor – Michael Bauwens

Publicação – março de 2005

Introdução

O texto de Michael Bauwens é fundalmentalmente uma análise sociológica de um fenômeno visto como puramente tecnológico. Nesse sentido, se trata de uma contribuição importante para aqueles que querem entender as possíveis consequências sociais das novas tecnologías de comunicação e informação. Se trata ainda de material não publicado oficialmente, sendo portanto injusto emitir qualquer tipo de crítica fundamentada no texto que temos nas mãos. O texto a que tivemos acesso pode ser encontrado aquí.

Resumo

O termo P2P está vinculado a um determinado tipo de tecnologia, que tem como característica permitir aos usuarios de uma rede trocar arquivos digitais entre si. A proposta do ensaio P2P and the human evolution é mostrar que o P2P é muito mais do que apenas uma tecnologia popular na Internet. Segundo o autor do texto, o P2P seria também uma nova maneira de organizar a produção dentro de uma sociedade, assim como a política e a espiritualidade. A aparição do modelo  P2P neste momento histórico seria para ele um sinal do surgimento de um novo modelo de civilização,  que ao contrário da nossa estaria motivada por outros intereses além da simples busca pelo lucro.

Partindo dessa premissa, o autor procura mostrar as transformações que a adoção do modelo P2P pode trazer em distintas áreas da atividade humana, como política, economia e religião. Essas mudanças sao observadas desde uma perspectiva histórica, que contempla a antuiguidade escravista, a modernidade capitalista e a chamada pós modernidade, entendida por ele como o período histórico posterior a 1968, caracterizada por uma forma de capitalismo centrada no valor do conhecimento. Esta perspectiva historicista lembra bastante o materialismo histórico marxista, com a substituiçao do que na doutrina marxista se chama comunismo por aquilo que o autor denomina “ethos P2P”.

Retomando a questão do determinismo tecnológico, Bauwens afirma que o surgimento do ethos p2p no momento histórico atual é consequência menos da existencia das tecnologías de intercambio de arquivos digitais do que de uma vontade de direccionar os esforços de uma clase de trabalhadores (trabalhadores do conhecimento ou “hacker class”) no sentido de construir aquilo que ele chama de “commons”. Esse conceito poderia ser equiparado ao de inteligencia coletiva, encontrado em trabalhos de outros autores que falam sobre cibercultura.

A construção desse commons acontece de forma gratuita, nao motivada por nenhum ânimo de lucro. Fora de seus horários de trabalho, os trabalhadores da chamada hacker class vão pouco a pouco construindo uma imensa biblioteca de arquivos de texto, audio e video, sem receber por isso nenhuma compensação financeira, ganhando por seu trabalho apenas prestígio social dentro de seu grupo. A base material sobre a qual trabalha essa classe  é um ambiente de extrema riqueza e abundancia de informação e conteúdo, propiciada pelo surgimento das novas tecnologías de informaç4ao e comunicação.

Em oposiçao a essa classe existe uma outra classe, que o autor denomina vetor, que se sente especialmente prejudicada pela emergencia do P2P. Esta clase vive da escassez e do controle ao acesso à informação. Ela é formada por indivíduos que mantém posições privilegiadas em nossa sociedade, capazes de exercer grande poder de pressão tanto na esfera política como na judicial. Assim, a sobrevivência do ethos P2P passa por não permitir o aumento de poder dessa classe, que tenta preservar seus privilegios por meio daquilo que Lawrence Lessing chama de guerra do copyright.

Conclusão

P2P and the human evolution é um texto que foca nas consequências sociais da emergência das novas tecnologías. Aquilo que o autor chama de  ethos P2P  pode ser comparado ao que Pierre Levy chama cibercultura. Deixando de lado as diferentes nomeclaturas, é a idéia de mudança de paradigma na produção cultural que permeia e unifica ambos os conceitos. Apesar do otimismo as vezes exagerado, que ignora por exemplo a possibilidade de alguns grupos se apropriarem da produção coletiva (commons), como agora vemos acontecer nas chamadas content farms, e de uma certa extrapolação do conceito de P2P, que leva até a “esfera cósmica”, se trata de um texto indispensável para aqueles que pretendem analizar as redes de intercâmbio de arquivos  desde um ponto de vista mais do que meramente tecnológico.

Categories: P2P, Resumo